
5 de Dezembro de 2009, 01:30 madrugada de domingo, o telefone me desperta para o caos em família. No outro lado da linha, ouço meu irmão num pedido de socorro sonolento para Sheila. Levantei-me e parti para inicio de uma cruel realidade.
Chegando a casa de minha mãe, deparei-me com Sheila em completo desespero, as mãos no alto da cabeça, gritando em agonia a dor que lhe consumia. Rumamos para a emergência e após 2 horas em atendimento e observação, retornamos com leve melhora do quadro.
Às 04:45 já de volta em minha cama, uma nova chamada, a situação se agravara. Retorno sem jamais imaginar que naquele instante a vida escrevia mais um capítulo doloroso na história da Familia Mattos.
Após 6 meses, tento colocar pra fora o leque de emoções que vivi, todo o roteiro do que foi para mim a prova prática da sobrevivência ou um simulado de sanidade e heroísmo.
Dias de corre-corre, noites de sobressaltos, horas de aflição, intermináveis indagações, lágrimas, desespero, incertezas, buscas incessantes, apatia, desânimo, dor, espera.
Eu vivi intensamente cada momento, vírgula por vírgula, cena por cena, cada minuto do que me foi imposto. Vi por 3 vezes a morte anunciar sua presença no leito de minha irmã. Em meu intimo, a realidade duelava com a fé numa luta que parecia não ter fim.
Vi amigos distantes já esquecidos, se chegarem como se nunca tivessem partido; vi amigos íntimos do dia-a-dia, se afastarem como desconhecidos; vi pessoas desconhecidas que o momento os transformou em amigos.
Não preciso rastrear os fatos, trago ainda como ela seqüelas do que vivi. Minha ansiedade aumentou e ganhei peso, tenho momentos de irritabilidade, de medo, angústia. Trago um emaranhado de situações que antes não vivia, sonolência, esquecimentos, pesadelos. Tudo conseqüência das condições em que suportei a guerra declarada contra mim e meus irmãos.
Vi minha Mãe emocionalmente abalada, a Sheila mentalmente fragilizada, minhas filhas intelectualmente confusas enquanto Eu, André e Sônia nos tornávamos reféns do medo de diagnósticos cansativos e vazios, do dia-a-dia sádico, do hábito torturante de boletins médicos que tentavam explicar o inexplicável. Membros de uma família inteira se fragmentando individual e silenciosamente.
Nós 3, procuramos nos manter adequadamente adultos, tranqüilos, em silêncio assimilávamos tudo mas não entendíamos nada, na verdade, nossas atitudes eram automáticas, a vida já havia nos unido dessa forma há 18 anos atrás, desestruturando nosso emocional com a partida do Velho Mattos.
Incredulidade, era isso o que nos tomava de assalto a cada boletim médico, Encefalopatia Grave,/Lesão Isquêmica de Origem Bólica/Derrame Cerebral/Hipóxia/Aneurísma/Tetraplegia etc...nosso nível de aceitação e tolerância foi acima do limite, os diagnósticos eram absurdos, os médicos entravam em conflitos, as explicações eram superficiais, duvidosas, faltava clareza, opiniões exatas, parecer determinado, firme e com precisão. Mas como explicar o que não existe, o que não se vê?
Tumografia computadorizada do cérebro, Tumografia Computadorizada do corpo, Ressonância Magnética, Punção, exames laboratoriais bacteriológicos e nada, nada era encontrado. O desdobramento do quadro era o pior, não havia como entender, como decifrar os caminhos inesperados para o qual a patologia de Sheila tendia.
As frustrações se acumulavam, já não era mais possível considerar nada, definir nada, esperar nada.
Todas as religiões foram apresentadas a nós, rezas, orações, missas, cultos, trabalhos, em todos os caminhos buscávamos DEUS. O carinho das pessoas com sentimentos nos surpreenderam. A todo instante mensagens de conforto, telefonemas, visitas. Demonstrações intermináveis de FÉ e a Fé venceu.
Nunca adotei em minha vida nenhuma religião que não fosse a minha de batismo, CATÓLICA. Sempre expus minha opinião contrária e sem receios, sempre discordei, contestei, divergi do que não me parecia lógico. Jamais me interessei por vida após a morte, anjos, horóscopos, entidades, misticismos, etc...46 anos dedicados a uma única crença. Contestei Dogmas, seitas, filosofias de vida, questionei até as leis Divinas.
Hoje, diante de tudo o que vi e vivi, revejo meus conceitos e já não sou mais cética como antes. A medicina, os Médicos, o andamento, o desenrolar da patologia de Sheila contribuíram para isso e agora eu creio que tudo pode existir, inclusive a maldade e embora eu creia em tudo, adotei Deus como minha religião e sei que ele atendeu aos inúmeros pedidos dos maravilhosos amigos que de mãos unidas às nossas, pediram por Sheila.
Seria uma felicidade muito grande para mim registrar aqui o nome das pessoas que atravessaram esse difícil momento com a familia Mattos, pessoas que nos ajudaram de alguma forma até mesmo em pensamento, mas sob o risco de cometer o erro de esquecer um único nome, decido não fazê-lo.
Trago em meu coração o desejo de muita saúde a todos, em meus pensamentos a eterna lembrança do carinho de vocês e o firme propósito de colocá-los sempre em meus momentos com Deus.
Sheila caminha com sucesso na retomada da felicidade interrompida, saboreando a cada dia a vitória de ser merecedora do amor de Deus e do milagre da amizade de todos vocês.
Obrigada sempre!